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Type: Dissertação
Title: Do Chá à Soja: processo de urbanização na China sob um olhar brasileiro
Author(s)/Inventor(s): Silva, Gabriela Ribeiro Lourenço
Advisor: Ribeiro, Cláudio Rezende
Abstract: Este trabalho investiga a urbanização chinesa contemporânea a partir de uma perspectiva histórico-crítica e comparativa, articulando contribuições teóricas oriundas do pensamento chinês e brasileiro. Parte-se da premissa de que as categorias tradicionalmente mobilizadas para explicar a urbanização, como rural e urbano, campo e cidade, avançado e atrasado, não se apresentam como oposições estanques, mas como expressões contraditórias de um mesmo processo histórico. Sob essa chave interpretativa, tanto a experiência brasileira de urbanização dissociada da industrialização quanto a trajetória chinesa de industrialização conduzida sem expansão urbana plena são compreendidas como formas específicas de organização socioespacial, marcadas por padrões distintos de desigualdade. A análise articula reflexão teórica, leitura alegórica e investigação empírica, permitindo compreender a urbanização chinesa como um processo marcado pela coexistência de temporalidades, espacialidades e formas sociais heterogêneas. Essas formulações são articuladas às categorias clássicas da interpretação da urbanização periférica brasileira, especialmente aquelas elaboradas por Milton Santos (1993) e Francisco de Oliveira (1982; 2003). A comparação evidencia que, embora Brasil e China não tenham seguido os padrões históricos do Norte Global, suas trajetórias revelam combinações distintas entre Estado, território e trabalho. No caso chinês, destacam-se a políticas públicas como o sistema de registro residencial Hukou, a estratégia da Terceira Frente (三線建設), as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), o Plano de regionalização do Plano Nacional para um Novo Tipo de Urbanização (NNUP) e o controle estatal da terra como instrumentos centrais de regulação da mobilidade populacional, do uso do território e da reprodução da força de trabalho. Tais mecanismos permitiram uma acumulação industrial acelerada, ao mesmo tempo em que produziram assimetrias entre áreas urbanas e rurais. A dimensão vivida dessas contradições é apreendida por meio da análise de quatro produções cinematográficas chinesas, sendo elas: Banhos (1999), Dead Pigs (2018), Last Train Home (2009) e Whose Utopia (2006), tratadas como dispositivos analíticos e não como ilustrações. Os filmes revelam, em diferentes escalas, os impactos da urbanização acelerada sobre o trabalho migrante, os vínculos familiares, a mercantilização da terra e a reorganização do tempo social, evidenciando a porosidade das fronteiras entre urbano e rural e tensionando leituras baseadas em noções fixas de marginalidade. Essa leitura teórica e alegórica é aprofundada por uma análise empírica da distribuição espaço-temporal de variáveis econômicas e demográficas no Brasil e na China, evidenciando que a urbanização não pode ser compreendida como simples resultado do crescimento econômico. Os resultados indicam que a que a urbanização chinesa, assim como a brasileira, deve ser compreendida como um processo contraditório, historicamente situado e territorialmente produzido, no qual diferentes formas de vida, regimes de trabalho e usos do espaço coexistem de maneira desigual. Ao integrar reflexão teórica, análise simbólica e investigação empírica, o estudo reforça a necessidade de abordagens não universalizantes para a compreensão da urbanização no Sul Global, capazes de articular políticas públicas, economia política e produção do espaço, reconhecendo a contradição como elemento constitutivo da realidade concreta.
Abstract: This study investigates contemporary Chinese urbanization from a historicalcritical and comparative perspective, articulating theoretical contributions from Chinese and Brazilian thought. It is grounded in the premise that categories traditionally mobilized to explain urbanization—such as rural and urban, countryside and city, advanced and backward—should not be understood as fixed oppositions, but rather as contradictory expressions of a single historical process. From this interpretive standpoint, both the Brazilian experience of urbanization dissociated from industrialization and the Chinese trajectory of industrialization pursued without full urban expansion are understood as specific forms of socio-spatial organization, each marked by distinct patterns of inequality. The analysis integrates theoretical reflection, allegorical reading, and empirical investigation, enabling an understanding of Chinese urbanization as a process characterized by the coexistence of heterogeneous temporalities, spatialities, and social forms. These formulations are articulated with classical categories developed in Brazilian interpretations of peripheral urbanization, particularly those proposed by Milton Santos (1993) and Francisco de Oliveira (1982; 2003). The comparison reveals that, although Brazil and China did not follow the historical trajectories of the Global North, their development paths display distinct combinations of state action, territory, and labor. In the Chinese case, public policies such as the household registration system (Hukou), the Third Front strategy (三線建設), the Special Economic Zones (SEZs), the regionalization guidelines of the National New-Type Urbanization Plan (NNUP), and state control over land emerge as central instruments for regulating population mobility, territorial use, and the reproduction of labor power. These mechanisms enabled rapid industrial accumulation while simultaneously producing asymmetries between urban and rural areas. The lived dimension of these contradictions is examined through the analysis of four Chinese cinematic works—Shower (1999), Dead Pigs (2018), Last Train Home (2009), and Whose Utopia (2006)—treated as analytical devices rather than mere illustrations. Across different scales, the films reveal the impacts of accelerated urbanization on migrant labor, family ties, land commodification, and the reorganization of social time, highlighting the porous boundaries between urban and rural spaces and challenging interpretations based on fixed notions of marginality. This theoretical and allegorical reading is further deepened by an empirical analysis of the space–time distribution of economic and demographic variables in Brazil and China, demonstrating that urbanization cannot be understood as a simple outcome of economic growth. The findings indicate that Chinese urbanization, like its Brazilian counterpart, should be understood as a contradictory, historically situated, and territorially produced process, in which different ways of life, labor regimes, and uses of space coexist unevenly. By integrating theoretical reflection, symbolic analysis, and empirical investigation, the study reinforces the need for non-universalizing approaches to urbanization in the Global South—approaches capable of articulating public policies, political economy, and the production of space, while recognizing contradiction as a constitutive element of concrete reality.
Keywords: Urbanização
China
Brasil
Contradição
Produção do espaço
Subject CNPq: CNPQ::CIENCIAS SOCIAIS APLICADAS::ARQUITETURA E URBANISMO
Program: Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
Production unit: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Publisher: Universidade Federal do Rio de Janeiro
Issue Date: 4-Mar-2026
Publisher country: Brasil
Language: por
Right access: Acesso Aberto
Citation: SILVA, Gabriela Ribeiro Lourenço. Do Chá à Soja: processo de urbanização na China sob um olhar brasileiro. 2026. 110 f. Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2026.
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